Karuazú

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O longo processo de migração experimentado por famílias pankararu desde a extinção oficial do aldeamento de Brejo dos Padres, no penúltimo quartel do século XIX, promoveu a formação recente de coletivos de identidade indígena genealógica e culturalmente ligados aos índios Pankararu (PE).

Localização parcial das comunidades que compõem as etnias: Kalankó, Karuazu, Katokinn e Geripankó.
Ritual do flechamento do Imbu dos índios Karuazú.


Dentre esses grupos estão os Karuazu, constituídos a partir de uma das frentes de migração do aldeamento matriz pernambucano que foi responsável também pela constituição dos grupos Geripankó e Kalankó, dispersos entre os municípios alagoanos de Água Branca e Pariconha, alto sertão do estado e a cerca de dois dias de caminhada de Brejo dos Padres. Conservando fortes vínculos com os Pankararu e com o território de origem, os Karuazu vêm há gerações atualizando suas referências sociocosmológicas através de viagens regulares ao aldeamento matriz, motivadas por propósitos rituais ou pelo simples desejo de rever os parentes, vínculos que proporcionaram sua recente etnogênese.

Ao lado de tais referências, os casamentos interétnicos entre as famílias provenientes de Brejo dos Padres e negros locais comporiam um meio fundamental de inserção econômica e social das famílias caboclas na nova terra, possibilitando-lhes, além disso, novas referências necessárias à construção de uma territorialidade paralela àquela representada pelo aldeamento de Brejo dos Padres. Desta forma, sobrepondo, articulando, costurando e sintetizando referências e memórias, os Karuazu demonstram como movimentos históricos de diásporas indígenas podem originar ricos e criativos processos sociais onde o local e o translocal, o endógeno e o exógeno encontram-se a fim de produzir novas identidades. Sua população é de 1.013 (Funasa, 2010).

A língua de uso corrente é o português, com acento regional. Há uma série de palavras de uso restrito, associado aos desempenhos rituais do praiá e toré, ditas pertencerem ao léxico da língua Pankararu e que se referem, basicamente, a artefatos e agentes rituais.

Os Karuazu estão concentrados nos povoados de Tanque e Campinhos, município de Pariconha, extremo oeste do estado de Alagoas. Essas três localidades surgiram quase simultâneamente no século XIX como núcleos de povoamento gerados com a abertura de fazendas de gado em meio à caatinga, uma iniciativa das famílias “Casemiro”, “Panta” e “Alves”, dentre outras, que se instalaram na região pouco antes da chegada das primeiras famílias vindas do aldeamento pernambucano de Brejo dos Padres.

A história da família Panta, de origem negra, é fundamental para os Karuazu, pois condensa uma série de eventos que fazem parte da história de constituição desse povo. Assim, é dos Pantas que provém os principais elementos da territorialidade karuazu, produzindo os valores que reverteram a translocalidade das famílias que vieram de Brejo dos Padres e que, mesmo se instalando no Tanque e Campinhos, mantiveram o aldeamento pankararu como território ritual de referência. A linhagem dos Pantas contribuiu significativamente para a construção de um sentido local da história karuazu, denotando a assimilação social de um segmento negro dentre os Karuazu de hoje e a ampliação para o grupo de uma história familiar específica e própria deste segmento, passando a atuar, ao menos parcialmente, como patrimônio coletivo. O nome Panta decorre de Pantaleão de Araújo Andrade, um negro que, no século XIX, chegou onde hoje está o povoado de Campinhos e herdou de seu pai, Joaquim José de Andrade, vulgo “Velho Andrade”, parte das terras que este havia adquirido nos arredores da cidade de Água Branca. Dentre as propriedades de Pantaleão estava a fazenda Cazumba, um sítio com 43 hectares localizado próximo ao povoado de Campinhos, terra depois passada a seus filhos por herança e onde boa parte de seus descendentes se criou, constituindo-se em terra com sentimento afetivo forte agregado ao seu valor de propriedade. Com base nas entrevistas realizadas durante o trabalho de campo, Pantaleão Andrade foi o primeiro dos filhos do “Velho Andrade” a fixar residência nos arredores das terras que comporiam o povoado de Campinhos, morando também parte de sua vida na cidade de Pariconha.

Com sua prosperidade como proprietário rural, somando às terras herdadas outras adquiridas por compra ou reivindicação (no caso de terras devolutas), Pantaleão de Araújo tornou-se uma referência para os caboclos [isto é, aqueles que descendem de populações indígenas aldeadas] que vinham de Brejo dos Padres atrás de emprego e, além disso, casou alguns de seus filhos e filhas com esses índios. Os casamentos interétnicos entre negros e índios já eram uma realidade acentuada no aldeamento de Brejo dos Padres pouco antes dele ser declarado extinto em 1875 e tal modalidade de matrimônio – eleita estratégia oficial de “desindianização” – representou uma possibilidade viável de acesso à terra para negros escravos ou foros e colonos brancos pobres.

Mediante as trocas matrimoniais entre os Pantas e os caboclos originários de Brejo dos Padres que chegavam aos arredores de Pariconha, a memória deste segmento negro pode posteriormente ser absorvida e incorporada àquelas das famílias que viriam a compor o conjunto karuazu. Para as famílias que chegaram ao povoado do Tanque, onde hoje está a maioria das famílias originárias de Brejo dos Padres, o intercâmbio com os Pantas foi relativamente menor, mas o efeito de assimilação da história semelhante. Tal incorporação deve ser vista dentro do quadro recente de rearranjo de uma história karuazu com base nas narrativas e experiências familiares de suas partes e no avivamento de uma determinada história heróica relativa a uma linhagem que, mesmo não sendo indígena nem de origem pankararu, passou a integrar parte significativa do patrimônio desse grupo, porque a ele cedeu referências de autoctonia que serviram para a construção de seu sentimento de localidade. Foi-se, então, tecendo uma territorialidade pautada, parcialmente, em recursos e emblemas emprestados dos Pantas, tradicional família de Campinhos, que doaram às famílias caboclas migradas de Brejo dos Padres referências para a construção de uma história local calcada na ocupação de sua nova terra.

Longe de suscitar preocupações com a manutenção de uma “pureza étnica” – ação desmedida, já que a mistura é uma dinâmica social trazida de Brejo dos Padres – a incorporação dos Pantas repetia um modelo aberto de alianças já posto em prática durante as fusões étnicas promovidas pelas agências coloniais. Ao misturarem-se e se abrirem aos matrimônios interétnicos, os caboclos provenientes de Brejo dos Padres estavam se reinventando enquanto um grupo social específico, pois construindo uma nova história a partir da fusão de memórias diversas.

A atividade econômica das famílias karuazu está dirigida basicamente para a agricultura doméstica – incluindo aí o plantio de mandioca para a produção de farinha e as culturas de milho e feijão – e para a criação de pequenos animais, sobretudo ovelhas, galinhas e porcos. Algumas famílias, entretanto, obtêm excedentes de produção de farinha, milho e feijão que são comercializados na região; outras vendem sua mão-de-obra para a produção de farinha em larga escala ou para Usineiros da Zona da Mata, atividades sazonais que permitem o incremento irregular da renda doméstica.

Embora decisivas para a renda das Unidades Domésticas (UD's) onde estão presentes, as aposentadorias rurais alcançavam índice relativamente baixo (cerca de 23% das UD’s tem ao menos um aposentado) – similar àquele observado entre os Kalankó no mesmo período – o que, dentre outros motivos, provavelmente decorre do alto número de jovens e crianças. A presença de aposentados nas UD's garante uma renda mensal fixa igual ou superior a um salário mínimo; nas demais UD's a renda mensal é bastante flutuante e seu cálculo difícil, já que nem sempre as famílias obtêm proventos decorrentes do assalariamento ou da comercialização de excedentes, vivendo apenas da subsistência. Isto ocorre ainda que a média de pessoas economicamente ativas por UD seja expressiva, terminando por incentivar a migração para cidades como Maceió e São Paulo.

A herança cultural e os vínculos genealógicos com os Pankararu de Brejo dos Padres conferem aos Karuazu a natureza indígena de sua identidade, mas são várias as matrizes étnicas – secundárias, indígenas ou não – presentes nas famílias que constituem o grupo. Este fato é congruente com a própria constituição pluriétnica dos Pankararu em função dos vários processos coloniais que fizeram deles produto de rotinas coloniais de territorialização e fusões. Importa, portanto, destacar entre os Karuazu outras matrizes que, ao entrarem profundamente em sua história, permitiram ao grupo uma identidade distinta daquela dos Pankararu – sem, entretanto, negar-lhes a posição de “ponta de rama” desse grupo – e a produção de formas específicas de interação social e categorias de autopercepção. Algumas dessas matrizes étnicas foram introduzidas por famílias cuja origem remonta aos grupos Atikum (PE), Pankararé (BA), Fulni-ô (PE), Tingui-Botó (AL) e Kariri-Xocó (AL). Contudo, a que carrega importância equivalente à matriz de Brejo dos Padres em termos de contribuição para a formação do grupo é aquela representada pela família Panta, o principal segmento negro da composição karuazu.


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